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Monitorização Infecciosa em Pacientes Críticos

Atualizado: 5 de mai. de 2025


Introdução

A detecção precoce e o acompanhamento contínuo de infecções em pacientes críticos são essenciais para reduzir a morbimortalidade em Unidade de Terapia Intensiva (UTI). A infecção, frequentemente associada à sepse, exige vigilância clínica e laboratorial rigorosa. A integração de marcadores inflamatórios, parâmetros fisiológicos e exames microbiológicos permite um manejo mais seguro e preciso, guiando decisões terapêuticas e ajustando o tratamento de acordo com a resposta do paciente.


1. Marcadores Clínico-Laboratoriais de Infecção


1.1 Temperatura Corporal

A febre é um achado comum em infecções sistêmicas e processos inflamatórios. Define-se febre como temperatura axilar ≥ 37,7°C. Em pacientes críticos, febres acima de 38,9°C devem motivar a investigação diagnóstica e, frequentemente, o início de antibioticoterapia empírica. Não há relação direta entre o grau da febre e a gravidade do quadro infeccioso. Tratamento específico da febre é reservado para casos extremos (ex: >41°C) ou com risco associado, como hipertensão intracraniana.


1.2 Proteína C Reativa (PCR)

A PCR é uma proteína de fase aguda sintetizada no fígado sob estímulo de citocinas inflamatórias, especialmente a interleucina-6 (IL-6). Embora inespecífica, a elevação da PCR (geralmente >50 mg/L) sugere infecção bacteriana ativa, sendo útil para monitorar a evolução clínica. Deve-se interpretar com cautela em doenças crônicas inflamatórias ou autoimunes, onde pode haver elevação basal.


1.3 Procalcitonina (PCT)

A procalcitonina é um marcador mais específico para infecção bacteriana, pois é pouco influenciada por infecções virais e inflamações não infecciosas. Sua produção é estimulada por toxinas bacterianas e inibida por interferon-gama. Tem valor diagnóstico e prognóstico na sepse, além de orientar a descontinuação da antibioticoterapia. Os valores clínicos sugeridos são:

  • < 0,10 mcg/L: forte contraindicação ao uso de antibióticos

  • < 0,25 mcg/L: considerar não iniciar antibiótico

  • 0,25 mcg/L: considerar antibioticoterapia

  • 0,50 mcg/L: forte indicação para antibioticoterapia

  • 1,0 mcg/L: sugere infecção bacteriana grave em pacientes críticos

A PCT é detectável em 4 horas e atinge pico em 12–48 horas após início da infecção.


1.4 Lactato Sérico

O lactato é um marcador indireto de hipoperfusão tecidual e metabolismo anaeróbio. Níveis >2 mmol/L indicam risco aumentado, e >4 mmol/L associam-se a mortalidade significativamente maior. Deve-se monitorar o lactato em série para avaliar a resposta à ressuscitação hemodinâmica. Causas não infecciosas também devem ser consideradas, como intoxicação por metformina, cetoacidose diabética e insuficiência hepática.


1.5 Parâmetros da Coagulação

A sepse induz disfunções endoteliais e ativação exacerbada da cascata de coagulação, podendo evoluir para coagulação intravascular disseminada (CIVD). Achados laboratoriais incluem:

  • Diminuição de antitrombina III

  • Aumento de D-dímero (>500 ng/mL)

  • Trombocitopenia (<100.000/mm³)

A monitorização desses parâmetros é essencial na suspeita de sepse grave ou choque séptico.



2. Exames Microbiológicos


2.1 Culturas Diagnósticas

A coleta de culturas deve ser feita de forma criteriosa e sempre antes da introdução de antimicrobianos, para aumentar a sensibilidade diagnóstica. São recomendadas:

  • Hemoculturas: mínimo de dois pares de locais diferentes, com 10–20 mL por frasco em adultos.

  • Urocultura

  • Secreção respiratória (aspirado traqueal ou lavado broncoalveolar)

  • Swabs de vigilância (nasal, orofaríngeo, anal ou retal)

Mesmo com técnicas adequadas, hemoculturas podem ser negativas em até 50% dos casos de sepse. A interpretação deve sempre considerar os dados clínicos e epidemiológicos.


2.2 Culturas de Vigilância

Fazem parte da vigilância ativa para microrganismos multirresistentes, sendo importantes em estratégias de controle de infecção hospitalar. Devem ser coletadas rotineiramente em unidades com alta prevalência de colonização por patógenos como Klebsiella pneumoniae KPC, Acinetobacter baumannii ou Enterococcus VRE.


Conclusão

A monitorização infecciosa em UTI requer abordagem multidimensional, combinando dados clínicos, laboratoriais e microbiológicos. A utilização racional de marcadores como PCR, procalcitonina e lactato, aliada a cultura adequada de materiais biológicos, contribui decisivamente para o diagnóstico precoce da sepse, o ajuste da antibioticoterapia e a redução da mortalidade hospitalar.



Referências Bibliográficas

  • MSD Manual. Monitoramento e exames para paciente de cuidados críticos. Disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt/profissional/medicina-de-cuidados-cr%C3%ADticos

  • UpToDate. Fever in the intensive care unit, Pathophysiology and treatment of fever, Acute-phase reactants, Evaluation of the patient with shock, Procalcitonin and CRP in pneumonia, Blood cultures.

  • Consenso Brasileiro de Sepse. Scientia Medica, PUCRS, v.16, n.1, 2006.

  • Friedman G, Lobo S, Rigato O. Monitorização da resposta inflamatória.

  • Doern GV. Blood cultures for the detection of bacteremia.



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